user preferences

Poder e Domínio

category brazil/guyana/suriname/fguiana | anarchist movement | opinion/analysis author Tuesday December 15, 2009 13:31author by Fábio López López Report this post to the editors

Excertos

Excertos do livro "Poder e Domínio: uma visão anarquista" discutindo diversas questões em torno do tema.

cresce_o_poder_popular.jpg

PODER E DOMÍNIO

Excertos

Fábio López López


AGENTE SOCIAL, FORÇA SOCIAL E CAPACIDADE DE REALIZAÇÃO

Nosso trabalho se restringe à área social, por isso nos interessamos em desenvolver um modelo que partisse do agente social. Entendemos como agente social qualquer ser humano que viva em sociedade, tenha capacidade de desejar, escolher e agir. Este agente social está necessariamente inserido em uma realidade social conflituosa. Qualquer sociedade, mesmo a comunal, tem conflitos, logo tem relação de poder, pois um grupo terá de impor sua vontade contra os interesses de outros quando um objeto escasso estiver em disputa.

Todo agente social é dotado naturalmente de uma determinada força social, que é a energia racionalmente aplicada pelos agentes na consecução de seus objetivos na sociedade. Cada agente tem determinada força social, mesmo que esta se restrinja à mera “força bruta" – a qual não serve muito mais do que para uma primária agressão física. É óbvio que a força social dos agentes é variável, de agente para agente, de um agente no transcorrer de sua vida e até com relação ao projeto que o agente está engajado. Todos os agentes, para alcançar seus objetivos se valem (quando possível) dos instrumentos para ampliação da força social. Qualquer coisa pode ser instrumento para ampliação de força social: um armamento simples (como uma faca ou revolver), informação, aumento de força física, aprimoramento de técnica de luta, saber e experiência para melhor atuar (otimização na aplicação das forças que dispõe), erudição (para ter maior capacidade de persuadir), ou uma máquina que aumente a produção do trabalho.

Uma força social tem determinada capacidade de realização. Capacidade de realização pode ser entendida, como a possibilidade de produzir de determinada força social, quando colocada em ação pelo agente que a detém. É muito importante esta definição, uma vez que a “capacidade de realização” é constantemente utilizada como sinônimo de poder. Ou seja, quando um agente tem a capacidade de realizar ou produzir determinado efeito, se diz que ele tem poder. Não é nada disto, o agente pode ter a capacidade de realizar até uma relação de poder, contudo, nem tudo que o agente realiza é poder. [...]

Nosso trabalho se restringe ao poder como relação social. Então só entendemos por poder aquilo que atinge os agentes sociais. Se analisássemos sob uma ótica mais ampla, como a de Nietzsche, aí sim poderíamos dizer que qualquer produção é uma relação de poder. [...]


PODER

Na exposição da capacidade de realização, nos precipitamos e demos pistas do que entendemos por relação de poder. Então, entremos logo na discussão sobre o poder, pois ela nos elucidará o entendimento da capacidade de realização. Façamos algumas considerações para irmos definindo o que é poder.

O poder é uma relação social que está localizada no espaço, tempo e na sociedade. Ou seja, uma determinada relação se estabelece em determinado lugar, em determinada época e envolve determinado grupo de agentes.

O poder, também, não pode ser entendido apenas como sinônimo de repressão: o poder constrói, o poder cria, o poder articula e estrutura toda a sociedade. Sempre em favor de quem o detém. Contudo, isto não é necessariamente antipopular. Por exemplo, quando uma comunidade impede que se construa uma Usina Nuclear em sua localidade, frustrando empresários e o Estado, temos uma relação de poder onde a vontade popular foi vitoriosa.

Poder não pode ser mero sinônimo de força social, pois para ter poder é necessário fazer uso de sua força e ela ter efeito – ou ao menos poder fazer uso desta força (quando lhe convier) e isto ser o suficiente para conseguir o efeito. Vamos mais além, ter força social e consolidar algo onde não encontramos oposição, onde todos são indiferentes ou unânimes em nos apoiar, também não pode ser entendido como uma relação de poder. Lembremo-nos que nosso modelo é de conflito social, no qual todo agente tem um determinado quantum de força. Estes agentes têm vontades, intenções diferentes e por isto entram em conflito. O conflito entre agentes significa o enfrentamento entre as forças sociais mobilizáveis por estes agentes. A maior força social será a vitoriosa, conquistando para o agente que a mobilizou o objeto pelo qual se digladiava. É este ato de imposição de uma força sobre sua oposição que chamamos de poder. Para ser mais exato: poder é a imposição da vontade de um agente através da força social que consegue mobilizar para sobrepujar a força mobilizada por aqueles que se opõem.

Voltando à questão da capacidade de realização. Podemos considerar que um agente tem a capacidade de realizar uma relação de poder, uma vez que no embate com outro agente, ele consegue produzir uma nova relação social (de poder) até então inexistente entre ambos. Contudo, como já havíamos apontado, nem toda capacidade de realização de uma força social será poder, uma vez que nem toda disposição para produzir algo gerará conflito e necessitará de um ato de imposição para se consolidar. Portanto, não é necessário ter poder para produzir, e podemos afirmar que poder tem menos a ver com produção do que com imposição. A produção é conseqüência da capacidade de realização das forças sociais em ação, que inclusive podem produzir o próprio poder. [...]

Para nós, só existe relação de poder se houver conflito, portanto, em algum momento à oposição, logo a resistência é condição indispensável para a caracterização sociológica do que definimos como poder.

Outro ponto, e sem dúvida mais importante, diz respeito à probabilidade de impor a vontade. Nosso entendimento é que aquele que tem a probabilidade de impor sua vontade em uma relação social conflituosa e não o faz, não tem poder algum. Este agente tem, sim, a capacidade de realizar uma relação de poder – por ter mais força social que seus oponentes – mas esta capacidade não é poder ainda. Somente quando o agente mobiliza sua força superior e se impõe no conflito, é que ele percebe uma relação de poder em seu favor. Isto porque o poder só existe quando o exercemos e não quando temos apenas a probabilidade de impor nossa vontade. Aliás, a definição de Weber de poder traz uma contradição com nossa concepção. Se o agente está em uma relação conflituosa e mesmo tendo mais força que seu oponente não se impõe, significa, necessariamente, que seu opositor está se impondo a ele, logo o agente mais forte estaria subjugado ao poder da força social mais débil. Daqui tiramos a primeira lei do poder: quando existe um conflito onde duas forças disputam o controle de um único objeto, a guerra só cessará quando se estabelecer uma relação de poder. Da primeira lei derivamos a segunda lei: quando existe conflito, mas não vemos guerra – ou seja, em tempos de “paz” – se o agente não estabeleceu poder: seu opositor terá estabelecido. Obviamente não existe esta possibilidade do agente débil subjugar o agente forte. Chegamos à terceira lei do poder: Sempre, o agente que empenhar maior força social em determinado conflito até aquele momento histórico, será o detentor do poder.

A terceira lei suscita o questionamento sobre o modo da aplicação das forças no embate. É óbvio que partimos do pressuposto que os agentes sabem otimizar a aplicação das forças que empenham no conflito. Acreditamos que podemos partir desta pressuposição simplificadora, porque todos os agentes, quando se envolvem em uma disputa, planejam a aplicação de suas forças, exatamente para evitarem desperdícios comprometedores ao alcançamento das metas. Isto, inclusive, é coerente com nossa definição de força social, onde ressaltamos o aspecto racional de sua aplicação. Contudo vale lembrar que saber como “melhor aplicar suas forças” é um instrumento de ampliação da força social. Logo, aquele que sabe aplicar melhor sua força, terá uma maior ampliação desta, o que significa ter mais força aplicada no conflito.

A confusão gerada pela terceira lei do poder é fruto da ação de agentes, que não mobilizam todas as forças que têm em determinado embate. Levando em consideração apenas os casos de embate efetivo (guerra) – onde os agentes medem suas forças e capacidades – a força potencial - aquela que não foi mobilizada – não serve de nada. No combate só se considera a força que foi efetivamente empenhada. Portanto, em um conflito específico, o detentor do poder será sempre o agente que tiver mais força aplicada ao conflito. No entanto, nem toda relação de poder nasce depois do embate das forças mobilizadas. Caso determinado agente tenha grande superioridade de força com relação à oposição, talvez nem precise fazer qualquer mobilização para garantir o que quer. Para se estabelecer uma relação de poder, muitas vezes basta a possibilidade do uso da força – neste caso, apesar de não ter havido embate, o conflito é latente e perceptível.

Afirmamos que vemos agentes com potencial para mobilizar mais forças em determinado embate, mas não o fazem. Isto dá a impressão de que o agente optou por não mobilizar as forças de que dispunha. Tal omissão teria como conseqüência a consolidação de coisas que o agente é contra, ou a frustração de seus planos. Contra isso, os agentes usam todas as forças disponíveis para defender aquilo que realmente consideram importante. Se assim não fizer, é porque suas forças já estão debilitadas – talvez pela fadiga da batalha – ou não dispõem mais das forças que supunha, ou ainda, o custo de mobilização destas forças passou a ser proibitivo ¬isto significa, não dispor de recursos para mobilizar a força que se desejava, o que é quase o mesmo que não dispor mais destas forças. Chegamos assim à primeira conclusão sobre a lógica do poder: quem tem mais força social se impõe sempre, logo é o detentor do poder. A lógica do poder não parece facultar ao agente com força social superior a escolha de querer se impor ou não. Este é outro ponto de contradição com Weber. Pois a lógica do poder nos leva a concluir: todo aquele que tem a probabilidade de impor sua vontade, se imporá sempre. Sendo assim, ninguém considera a probabilidade de se impor, ou se tem condições para fazê-lo ou não, se tiver força para tal, o fará. [...]

Podemos definir outro conceito importante: subjugado é todo agente social que sofre contra si uma relação de poder, pois sua força social é débil no embate com a outra. Os subjugados se dividem em dois grupos: os que se tomaram dominados, pois acabam trabalhando em prol dos interesses do poder e dos resistentes que não trabalham naquilo que se opõem. Todo subjugado obviamente sofre uma opressão, que significa a imposição unilateral de uma das partes de um determinado relacionamento – é conseqüência necessária da relação de poder.

O conceito de domínio é complexo, por isto, trataremos exclusivamente do grupo dos dominados no próximo capítulo. Já o tratamento dos resistentes, nos abre o caminho para aprofundarmos o entendimento sobre a lógica do poder.

Quando um agente entra em uma disputa, ele vai se articular de todas as formas para garantir seus interesses. Isto significa que o agente tenta em todo lugar procurar aliados e instrumentos suficientes para, quando o embate ocorrer, suplantar a oposição. Ao contrário do que se pode imaginar, o embate não cessa quando uma das forças consegue seu objetivo, ou seja, ao se estabelecer uma relação de poder. Não nos esqueçamos que a força subjugada foi derrotada na disputa de um objeto em determinado momento histórico, contudo não deixa de existir. Ao contrário, continua trabalhando em prol de seus objetivos na condição de resistência ao poder que a subjugou. Esta força subjugada pode tentar a qualquer momento e enquanto existir o objeto de disputa, reverter a situação. Portanto, o poder não é uma relação instantânea, a qual cessa após a conquista. O poder é uma relação que tem de ser permanente. A única coisa que garante a um agente a manutenção de seu interesse é permanecer sempre com mais força social que sua oposição.

Se temos um conflito social, a força subjugada não ficará parada com uma derrota. Aquela derrota é sempre delimitada no tempo. A força subjugada tentará acumular mais força para ter poder, o que significaria impor ao outro agente sua vontade. Neste caso teríamos uma evidente inversão de papéis: a força subjugada passou a ser a detentora do poder e o agente que era detentor do poder sobre aquele objeto em disputa, passou a ser subjugado. Exemplos claros são as disputas eleitorais pelo aparelho do Estado.
Então temos a seguinte situação: um agente, através da força social que conseguiu articular, consegue o status social de poderoso, que está ligado a determinado status quo – a condição de ser mais forte socialmente do que sua oposição. Para perpetuar isto, este agente tem que se manter continuamente mais forte que sua oposição, senão, com a mudança no status quo, nosso agente perde o status de poderoso. Portanto, outro ponto da lógica do poder é: a contínua e sistemática tentativa, por parte do poderoso (ou daquele que almeja o poder), de maximizar a apropriação de força social ao seu comando, para obter a expansão do quantum de força social original. Concluindo, o fenômeno social poder é uma relação social que necessita se auto-expandir para se perpetuar. Se isto não for obedecido, logo o poderoso perderá seu poder e passará à condição de subjugado.

E não existe qualquer possibilidade de o poder se perpetuar sem se auto-expandir. A estagnação da força social significa perda de poder. Por quê? Primeiro, o poder só está saudável quando se está expandindo. Estar estagnado significa que a resistência ao poder está aumentando. O aumento da resistência pode ter como conseqüência a perda da disciplina interna e a desorganização da estrutura que garante o poder do agente. Com o aumento da resistência, a oposição ao poder pode se encorajar a partir para ações desestabilizadoras do poder. [...]

Por isso, ser subjugado não significa ser fraco e ser resistência não significa ser passivo. Resumindo, a resistência pode ser passiva (quando o agente não tem qualquer ação contra o poder que o oprime) ou ativa (quando o poder sofre retaliações por parte dos subjugados), isolada (tem um caráter individual) ou articulada (força coletiva).

No exemplo acima o detentor do poder apenas se limita a reagir à ação da resistência, isto mostra por que consideramos os detentores do poder como reacionários. O poder quer preservar seu status, a resistência quer mudar o seu e tal mudança significa alteração da realidade social. O poder pode até reagir preventivamente, mas isso não passa de reação. A ação e iniciativa para alterações da realidade social são da resistência. O que não significa que o poder não realize coisas, ou inicie projetos, mas as mudanças sociais relevantes na história, do nosso ponto de vista, são a alteração das relações de poder (ou de seu comando) e domínio. [...]

Dentro da teoria do poder temos de estudar as relações entre estas forças e seus poderes. O fundamental dentro destas relações é o conceito de hegemonia. Sempre existirá, em qualquer sociedade, uma organização social que, graças à sua força, conseguirá impor em grande medida a sua vontade a todas as outras forças. Se não conseguirá impor, ela influenciará todas as outras. Esta será a força social hegemônica. Ou seja, é aquela força social que lidera e influencia as ações de todas as outras forças detentoras de poder na sociedade. A força social hegemônica é a organização com maior poder de uma sociedade. Este é o ponto máximo do poder, ou seja, quando ele é hegemônico. Reparem, ser hegemônico é diferente de estar no estágio autoritário. O “poder autoritário” não tem oposição em determinado ponto. O poder hegemônico não. Ele atua sobre diversas frentes e influencia vários detentores de poder. O poder hegemônico é questionado e encontrará resistências, afinal ele tem hegemonia sobre outras forças sociais poderosas. O poder hegemônico pode dominar outros detentores de poder e domínio – trataremos disto no próximo capítulo. Assim, vamos hierarquizando e organizando a sociedade.

O poder hegemônico pode estar no estágio autoritário em diversos pontos mas, provavelmente, nunca conseguirá ser autoritário em tudo que se meter. Já um poder no estágio autoritário pode ser hegemonizado por outro poder. Mas para entendermos melhor isso, precisamos nos ater à idéia de influência. Ter influência não significa ter poder. Aquele que influencia provavelmente não tem qualquer conflito com o influenciado, contudo, por razões diversas, entre elas até psicológicas, a tomada de decisão ou a informação de uma tendência por parte da força hegemônica, acaba sendo mais um ponto a ser apreciado pelos agentes sociais. Existem dois motivos para isso: primeiro, os agentes influenciados querem capitalizar o sucesso das ações do influenciador; segundo, os agentes procuram evitar entrar em conflito com a força hegemônica, uma vez que seria praticamente impossível suplantá-la. É óbvio que o agente que consegue influência, tem força social, mas isto não significa que ele conseguirá impor seus interesses num conflito com outras forças. Aquele que influencia tem grande força social, pois faz com que todos os tomadores de decisão levem em consideração suas posições. [...]

Algumas das estratégias que criam uma atmosfera favorável à perpetuação das relações de poder são: controlar os meios necessários para a sobrevivência humana, isolar o indivíduo de forma a mantê-lo como força relativamente débil (com capacidade de resistência limitada), desgastar o indivíduo fisicamente e tomar o máximo de seu tempo em função dos interesses do poder (no trabalho, por exemplo), promoção de meios de entretenimento individual (como ver esporte, TV, videogame e computador) e a criação de um clima de insegurança, medo e terror.

Estas estratégias deixam claro que o poder luta sempre pela individualização de nossas relações, só admitindo a associação (um dos instrumentos para ampliação da força social) se for sob o seu controle, ou seja, ao poder interessa manter uma sociedade desagregada, para que ele possa ser o pólo aglutinador e organizador desta sociedade. Por que isto? Para o poder, o melhor é que ele encare seus inimigos um a um, em separado. Pois ele teria toda sua organização contra apenas um. A articulação deve ser evitada a todo custo. O individualismo, a falta de comunicação, a segregação, os preconceitos, as “tribos”, a falta de solidariedade, a competição, a desconfiança generalizada, o isolamento e até a individualização são interessantes para o poder. Por isso, o poder tenta punir de forma exemplar a todos que planejem se articular – podemos ver isso, repetidas vezes, na repressão que sofreram os trabalhadores pioneiros na criação dos sindicatos.

Vemos um aspecto psicológico produzido pelo poder. Conseguindo submeter cada agente em separado; sua força social é infinitamente superior à força de cada indivíduo. Tal aspecto introduz no agente uma sensação de pequenez e de impotência. Produz a sensação de que o poder é indestrutível e que temos de nos adaptar a suas imposições. Tudo parece imutável e nada que possamos fazer tem força para desafiar o poder. [...]


DOMÍNIO

Domínio (ou dominação) é dispor da força social de outrem (do dominado), e, conseqüentemente, de seu tempo, para realizar seus objetivos (do dominador) – que não são os objetivos do agente subjugado.

Em nossa definição já começam os problemas. Recordemos o conceito de subjugado: subjugado é todo agente social que sofre contra si uma relação de poder... Muito bem, mas domínio entra em nosso modelo como o instrumento fundamental para ampliação da força social, do qual nenhuma organização que pretenda ter poder pode prescindir. Por isso, o domínio não pode ser o mesmo que poder.

Analisemos o caso mais atentamente. Existem três elementos constitutivos de uma relação de poder: o poderoso (agente que impõe), o subjugado (agente que se opõe) e o objeto disputado ou controlado. No domínio encontramos exatamente os mesmos elementos, mas a diferença entre ambos é que, na relação de poder, o objeto controlado pelo poderoso é distinto do subjugado. Já na relação de domínio, o objeto controlado é a própria força social do subjugado. Na relação de domínio, a força social do subjugado não é mais comandada pelo próprio, mas por seu dominador. Sendo assim, o domínio é um fenômeno socialmente distinto do poder, pois contém em seu bojo a alienação do agente dominado – no poder não há alienação, mas subjugação e resistência.

Outra distinção importante. Poder é sobrepujar a força social do agente com quem nos confrontamos; ele se dá externamente à organização do poderoso. O domínio, diferentemente, é um olhar para dentro do poder. Quando falamos de domínio, estamos focando as estruturas internas de uma organização que almeja poder, ou seja, estamos estudando como determinado agente acumula forças sociais para subjugar sua oposição. Por exemplo: dois exércitos inimigos têm o domínio sobre seus soldados, mas apenas o vencedor da guerra terá poder sobre o outro exército. [...]

Se dominar fosse ter poder, bastaria a todo aquele que dominasse aumentar o número de dominados para seu poder crescer proporcionalmente. Porém, o acréscimo de mais um dominado na organização, não representa um aumento proporcional da força social apropriada por tal organização. Por quê? O dominado tem sua força social comandada pelo dominador. Quanto maior a instituição, mais complicado fica o controle da execução de todos os comandos dados aos dominados. Pior que isso, o agente dominador perde a noção de tudo que deve ser comandado e os próprios canais de comunicação acabam distorcendo o comando. Estes aspectos, acrescidos dos recursos materiais que o dominador tem que dispor para sustentar aqueles que compõem sua organização, constituem o custo que o agente tem para mobilizar determinada força social. [...]

Se a força social de um agente dominado não foi necessária, este força na verdade não foi apropriada pelo dominador. Isto significa que a força social de um agente dominado só é apropriada pela organização caso ela, de fato, entre em ação “colaborando” para atingir os objetivos do dominador. Ou seja, ter um agente dominado à disposição não significa necessariamente que ele vá acrescentar força à organização; logo, o mero acréscimo de dominados a uma instituição não garante aumento de poder. [...]

Mas para estar dominado não basta a um agente deixar de se opor ao poder; o dominado de alguma forma consente e, na prática, colabora com o dominador – independente do que pense ou de sua vontade. Por que afirmamos isto? Como já expusemos, o poder é uma relação social que necessita se auto-expandir para se perpetuar. Algumas vezes, não se deixar dominar, ou seja, simplesmente não alienar sua força social ao poder, já é um ato de resistência (neste caso passiva). Logo, não podemos considerar que um agente esteja dominado simplesmente por não realizar ações contra o poder – pois isto pode até se configurar como resistência passiva tendo em vista a necessidade de expansão do poder. Para considerarmos que o agente está dominado, este agente terá de usar sua força social para a realização dos objetivos do dominador. [...]

Apesar de podermos entender o domínio como a autoridade com poder, o domínio continua sendo um instrumento de ampliação da força social, sem dúvida com características especiais, uma vez que é o único instrumento que pode multiplicar infinitamente a força social de um só homem e o faz da única forma possível, através do uso da força de outros homens. [...]

1. A vida do dominado fica mais pobre à medida que dedica seu tempo (patrimônio irrecuperável) à realização das vontades alheias. 2. Quanto mais coisas forem criadas através da força social do dominado, e que serão apropriadas ao comando do dominador, mais fraco e pobre relativamente fica o dominado. [...]

Assim o poder, ao dominar um agente, tem ganho duplo em seus instrumentos: a força social apropriada do dominado e do resultado da aplicação desta força. Em suma, mais possibilidade de poder porque se apropria da força social do dominado e porque toma para si o resultado da aplicação da força. [...]

Ser dominado significa estar obrigatoriamente alienado. O dominado não comanda suas ações, não precisa saber a razão delas e sua vontade não tem qualquer efeito. O que talvez exemplifique melhor esta relação (alienação-dominação) seja o fato de o dominado estar alienado de seu próprio tempo de vida realizando atividades de interesse de terceiros. [...]

O melhor meio para conseguir a dominação sobre determinados agentes é estabelecer confusão sobre seus verdadeiros interesses. E vemos isto com facilidade, por exemplo, percebam como é difícil fazermos a diferenciação de classe atualmente. Tendo esta dificuldade, os trabalhadores não conseguem perceber e defender seus verdadeiros objetivos, estando sujeitos a agirem por interesses alheios aos de sua classe, submetendo-se, portanto, ao domínio de outra classe.

Tendo a sociedade contemporânea a capacidade de forjar vontades e objetivos nas pessoas, este aspecto deixa de ser distintivo para identificar a relação de domínio. Temos de considerar a práxis do agente. Ou seja, não importa muito o subjetivo. Se o agente deseja ou não estar na situação de colaborar com um projeto, isto não é fator distintivo para verificar se houve domínio. O estado de domínio se identifica pela falta de opção, pela coação, pela mera hierarquia, pela alienação, pela falta de voz, pela recompensa residual, tendo em vista a finalidade real do projeto – como é o caso dos salários pagos ao trabalho alienado no capitalismo. Na realidade, é a abstração teórica o melhor referencial para identificamos uma relação de dominação, como por exemplo: a identificação das classes, de seus interesses, suas características e seus conflitos. Então, mostrar como a luta de classes estabelece as relações de domínio e poder. [...]


PODER POPULAR E PODER ALIENADO

Podemos fazer a diferenciação entre o “modelo de poder popular” (ou autogestionário) e “modelo de poder alienado” (ou hierárquico). No “modelo de poder popular” não existe domínio. O chamamos assim, pois esta é a única forma de haver uma organização com poder, onde seus componentes não sejam meros instrumentos alienados da vontade de terceiros. Ou seja, o membro de uma organização autogestionária compõe o poder daquela organização voluntariamente: suas sugestões, vontades e força são elementos relevantes. Exatamente por esta característica, o poder popular tende a ser frágil, fugaz, instável e elementar. Afinal, uma instituição deste tipo terá em seu bojo tantos pensamentos e vontades quanto forem seus integrantes, o que normalmente destrói a disciplina necessária para a manutenção da força social que conquistou o status de poderosa. Já o “poder alienado” é composto pela força social alienada de seus componentes, logo, contém domínio. Este poder é mais complexo, uma vez que trabalha com aspectos psicológicos profundos e se estrutura escondendo do dominado a face terrível da alienação. Se compararmos o poder alienado com o popular, notaremos complexidade do primeiro, uma vez que o poder popular surge do simples interesse comum das partes que o compõem. Como no poder hierárquico, a vontade de seus componentes alienados não tem grande importância, este poder é mais homogêneo, o nível de disciplina é provavelmente maior, logo este poder tende a ser mais forte e perene – o poder hierárquico é institucional. [...]

Definimos o poder popular como aquele que não contém domínio em seu bojo. A justificativa de chamarmos esta forma de poder como popular, consiste no fato de esta ser a única forma de organização onde seus componentes não são meros instrumentos alienados submetidos à vontade de terceiros. Isto significa que, para existir de fato um poder popular, as vontades e sugestões dos que compõem voluntariamente aquela força social têm de ser elementos relevantes no planejamento e na tomada de decisão da organização. [...]

O poder hierárquico é alienador, conduz ao culto da personalidade, esvazia a vida dos trabalhadores, uma vez que estes não poderão participar de decisões relevantes para suas vidas. As conseqüências são óbvias: cada vez menos os agentes discutirão assuntos relativos à produção e à sociedade, colocando em seus lugares futilidades do tipo futebol e novelas.


* Seleção: Felipe Corrêa

This page can be viewed in
English Italiano Deutsch

Front page

Declaração de Princípios e Intenções do FAO

Declaración Pública de Solidaridad con Huelga de Hambre Presos Políticos Mapuches

Georges Fontenis : une figure internationale du communisme libertaire nous a quittés

[Costa Rica] Ya no quedan más mejillas

Une solution : la liberté de circulation pour les migrant-e-s

¡Todo nuestro apoyo a las luchas del pueblo panameño!

FIAT, Telecom... La strategia del vampiro!

Then we take Costa Rica... The USA and the militarization of the Caribbean

Anarchism: A Documentary

Porque sí y ahora defender el Municipio Autónomo de San Juan Copala

Résistances au G20

2010 Soccer World Cup: All in the Name of the Beautiful Gain

The Anarchists Against the Wall and the Israeli radical left demonstrated today solidarity to GAZA

An anarchist talks on the Greek Crisis "The people have had enough"

Αλληλεγγύη στον αγώνα των Ελλήνων εργαζομένων!

ChuzaDAS: Otra olla podrida de la seguridad democrática

資本主義就是危機

Declaración Política de VOCAL sobre la Agresión Paramilitar en San Juan Copala, Oaxaca

نداء لوضع مانيفستو أناركي تحرري عن فلسطين

Death and the Mielieboer: The Eugène Terre’Blanche Murder & Poor-White Canon-fodder in South Africa

¡Alto genocidio silencioso de las comunidades y los mineros artesanales en Perú!

Anarchist Accountability

The IWW and Music: Creating a Working Class Counter-Culture

Anarquismo e Sindicalismo Revolucionário

Latest News

Brazil/Guyana/Suriname/FGuiana | Anarchist movement | pt

Sat 04 Sep, 05:15

browse text browse image

soli23.jpg imageSaiu o periódico Socialismo Libertário 23 13:17 Mon 14 Jun by Federação Anarquista Gaúcha 0 comments

Faixa Pró-FASP imageII Pró-FASP - Nota, documentos e fotos 16:04 Thu 23 Jul by Pró-FASP 6 comments

Libera 141 imageLibera 141 acaba de ser publicado 00:15 Thu 09 Apr by Federação Anarquista do Rio de Janeiro 0 comments

Livro Anarquismo Social e Organização imageFARJ Publica "Anarquismo Social e Organização" em Livro 20:36 Thu 12 Mar by Federação Anarquista do Rio de Janeiro 0 comments

textEncontro Pró-Federação Anarquista de São Paulo 00:21 Wed 06 Aug by Núcleo Pró-FASP 0 comments

capa_soli_18 imageJornal Socialismo Libertário – N° 18 00:37 Sat 02 Aug by militante fao 2 comments

soli17.jpg imageSocialismo Libertário, nº 17 15:55 Tue 06 May by Fórum do Anarquismo Organizado 0 comments

figura1.jpg imageSocialismo Libertário: Periódico Nacional do FAO 03:06 Sat 23 Feb by evandro couto 0 comments

textSite Vermelho & Negro .org 18:29 Thu 30 Aug by Fórum do Anarquismo Organizado (FAO) 0 comments

Capa do Socialismo Libertário, n° 15 image[Brasil] Jornal Socialismo Libertário n° 15 06:32 Wed 20 Jun by propaganda 0 comments

more >>

Opinion and Analysis

imageMikhail Bakunin e o Anarquismo Aug 24 by Felipe Corrêa 0 comments

imageCriar um Povo Forte Dec 14 by Felipe Corrêa 0 comments

imageTática e Disciplina do Partido Revolucionário Nov 17 by Mikhail Bakunin 0 comments

imageProtesto não é crime, nenhum passo atrás! Nov 01 by Federação Anarquista Gaúcha 0 comments

imageNota de Repúdio à invasão da Polícia Civil à sede da FAG Nov 01 by Federação Anarquista do Rio de Janeiro 0 comments

more >>

Press Releases

imageSocialismo Libertário, nº 17 May 06 FAO 0 comments

imageSocialismo Libertário: Periódico Nacional do FAO Feb 23 FAO Brasil 0 comments

textSite Vermelho & Negro .org Aug 30 Fórum do Anarquismo Organizado (FAO) 0 comments

imageNova Página da FAG na rede Sep 12 FAG 0 comments

textUNIPA abre grupo de discussão on line Sep 13 UNIPA 0 comments

more >>
© 2005-2010 Anarkismo.net. Unless otherwise stated by the author, all content is free for non-commercial reuse, reprint, and rebroadcast, on the net and elsewhere. Opinions are those of the contributors and are not necessarily endorsed by Anarkismo.net. [ Disclaimer | Privacy ]